Primeira leva de lambes A4 do Quebra Galho. Seis brasilidades, catorze paredes.
O Severino é o garçom oficial da casa. Ele anota o pedido correndo no bloquinho, então a letra nunca sai igual duas vezes.
Dentro da mesma palavra a letra repetida troca de forma: O, o e 0. As outras letras só alternam entre maiúscula e minúscula, sem inventar símbolo. Rock Salt grita os títulos com essa brincadeira. Covered By Your Grace conta o resto, solta e legível.
o que a gente serve
quem senta à mesa
quem fica embaixo dela
o que sai da chapa
o que passa na TV e na mesa de pebolim
o que fica do lado de fora
nº 01brasilidade · balcão
O filtro de barro é a peça mais honesta da cozinha brasileira. Aqui ele mudou de função: a etiqueta de água foi riscada e o Severino escreveu pinga por cima, com a mesma caneta da comanda.
O humor de boteco que brinca com o proibido sem perder o carinho de casa de vó. Azulejo de cozinha no fundo, toalha verde na mesa, copo americano esperando a gota.
nº 02brasilidade · gente
A pose do joinha com o copo na mão virou entidade de boteco. Aqui ela é a Severina: cabelo black, óculos redondo, argola, lápis preso no cabelo e a comanda no bolso da camisa listrada.
Quem manda no salão. É a garçonete que conhece todo mundo pelo nome e dá o aval pra mais uma rodada.
nº 03brasilidade · bicho
Fugimos da pose do caramelo sentado que aparece em todo lugar. Esse aqui apoiou as patas na mesa de plástico, encostou o queixo e travou os olhos no prato. Tem até baba.
O vira-lata caramelo como patrimônio afetivo do bar: não paga, não pede, mas sempre sai com alguma coisa.
nº 04brasilidade · balcão
O litrão inclinado servindo o copo americano, com a espuma passando da borda. O rótulo é escrito à mão, sem marca nenhuma.
A divisão mais justa do Brasil. Litrão não se toma sozinho: ele junta a mesa, a conta e a história.
nº 05brasilidade · balcão
O galo em cima do balcão, olho meio fechado, abraçando com a asa um copinho de rabo de galo com casca de laranja. O rabo de verdade está ali atrás, intacto.
O drink de cachaça com vermute que é de raiz, levado ao pé da letra. A piada mais velha do balcão, desenhada sem pressa.
nº 06brasilidade · balcão
Uma pirâmide de engradados coloridos com as garrafas espiando no topo. Num deles, o nome da Way Beer pintado à mão, desenho nosso e não a logo deles.
Licença poética pra homenagear o parceiro que fornece o chope. O chope chega de barril, mas engradado empilhado é a imagem que todo brasileiro reconhece de longe.
nº 07brasilidade · gente
Quatro braços, quatro tons de pele, quatro bebidas diferentes: copo americano, dose, garrafa e outro copo. Todos se encontram no centro com respingo e raio de cartaz de festa.
O bar como lugar de encontro. Não é sobre o que tem no copo, é sobre quem está segurando os outros.
nº 08brasilidade · cozinha
A comanda do Severino colada na parede com fita crepe, com o pedido escrito do jeito que ele escreve, letra trocando de forma no meio da palavra. Embaixo, o bolovo cortado e o bolovinho com bandeirinha.
Os carros-chefe da casa apresentados pelo próprio pedido. O lambe ensina a regra tipográfica da marca sem precisar explicar.
nº 09brasilidade · rua
O Gol quadradão estacionado no fim de tarde, com bagageiro no teto e engradado amarrado em cima.
O carro de tio que sempre chega no boteco raiz. Memória de calçada, porta-malas aberto e conversa que começa no estacionamento.
nº 10brasilidade · jogo
Em vez da mesa inteira, um único jogador de pebolim em close: corpo de madeira pintada, bigode, camisa 10, a barra cromada atravessando o peito e a bola saindo do pé.
A regra que todo mundo grita e ninguém respeita. No Quebra Galho, quem gira paga a rodada.
nº 11brasilidade · jogo
A TV de tubo no suporte de parede, gabinete de madeira, botões de girar e a antena com bombril na ponta. Na tela, o time comemora.
Dia de jogo no bar. A palavra GOL é o lugar perfeito pra regra do Severino: cada O é diferente do vizinho.
nº 12brasilidade · rua
A plaquinha pendurada no prego por barbante, cabeçalho vermelho, pontilhado até o valor. Só que os valores não são números.
A tabela de bar como piada de casa. Conselho sai de graça e fiado só amanhã, riscado pra ninguém esquecer.
nº 13brasilidade · gente
Um close só da perna: bermuda jeans desfiada, cadeira de plástico vermelha, perna de mesa amarela, piso xadrez. A perna cruzada tem tatuagem tosca de coração com mãe, andorinha torta, estrelinha e fitinha do Bonfim no tornozelo.
O convite mais brasileiro que existe, contado por um pedaço de gente. Cada tatuagem é uma história que provavelmente começou numa mesa de bar.
nº 14brasilidade · rua
O único lambe com a marca. A placa redonda pendurada na estrutura preta, igual à foto do dia, com araucária ao fundo, bandeirinhas e a grade da fachada.
O dia em que o Quebra Galho abriu as portas em Curitiba. A araucária assina o endereço sem precisar escrever.